quarta-feira, 8 de abril de 2015

Padre Serafim Rose e René Guénon


UMA CARTA DO HIEROMONGE SERAFIM (ROSE) PARA UM INQUIRIDOR ESPIRITUAL

O Pe. Serafim escreveu a carta que se segue no fim de sua vida. Ele se dirigiu a um jovem a quem nunca viu, mas sobre quem ouvira estar interessado nas obras do metafísico francês René Guénon. Como já foi dito, foi Guénon quem primeiro ensinou ao Pe. Serafim a necessidade da ortodoxia e da tradição. Essa compreensão levou-o a valorizar a tradição chinesa com seu forte senso de ortodoxia, e Gi-Ming Shien como um transmissor autêntico dessa tradição; e, finalmente, levou-o a abraçar a expressão tradicional da Revelação do Cristo na Ortodoxia. Numa incomum mudança de idéias, o Pe. Serafim mostra nessa carta como seu caminho para a tradição e para a ortodoxia o habilitaram a encontrar a Verdade – que, no fim das contas, não é em absoluto uma simples tradição. Ele reconhece sua identidade como ocidental e afirma as raízes cristãs do ocidente; e então explica que o caminho do Cristo não é especificamente ocidental, ou vinculado à cultura.

Nesta carta, se verá como o Pe. Serafim não recai nem no "fundamentalismo" nem no sincretismo. O fundamentalismo religioso (a crença de que qualquer coisa de uma tradição alheia à própria tem que estar errada) é intelectualmente satisfatório para mentes estreitas, enquanto o sincretismo religioso (a crença de que todas as tradições são iguais) é satisfatório para mentes amplas. Evitando ambos os extremos, o Pe. Serafim seguiu um caminho que não era intelectualmente satisfatório de modo nenhum; pois este é o caminho da Verdade. Como ele mesmo escreveu: "Quando eu me tornei um cristão, eu crucifiquei voluntariamente a minha mente, e todas as cruzes que carrego têm sido apenas uma fonte de alegria para mim. Eu nada perdi, e tudo ganhei."


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Caro Ken,

Salomônia (Rhonda) compartilhou comigo sua recente carta para ela e, ao lê-la, eu senti em você um espírito afim, para quem uma palavra da minha parte pode não ser em vão.

Sucede que René Guénon foi a influência principal na formação de meus próprios horizontes intelectuais (bem distantes da questão do Cristianismo Ortodoxo). Eu li e estudei com avidez todos os seus livros que pude encontrar; pela sua influência eu estudei a língua chinesa antiga, e resolvi fazer pela tradição espiritual chinesa o que ele fizera pela hindu; fui mesmo capaz de encontrar e estudar com um representante genuíno da tradição chinesa [Gi-Ming Shien] e compreendi perfeitamente bem o que ele [Guénon] quer dizer quando fala da diferença entre tais professores autênticos e os meros "instrutores" que ensinam nas universidades.

Foi René Guénon quem me ensinou a buscar e a amar a Verdade acima de tudo, e a estar insatisfeito com qualquer outra coisa; isso é o que, enfim, me trouxe à Igreja Ortodoxa. Talvez saber uma palavra sobre minha experiência será um auxílio para você.

Por anos, em meus estudos, eu me satisfiz em estar "acima de todas as tradições" mas, de algum modo, fiel a elas; apenas me aprofundei mais na tradição chinesa porque ninguém a havia apresentado ao Ocidente do ponto de vista plenamente tradicional. Quando visitei uma igreja ortodoxa, foi apenas para conhecer uma outra "tradição" – ciente de que Guénon, ou um de seus discípulos, descrevera a Ortodoxia como a mais autêntica das tradições cristãs.

Entretanto, quando entrei pela primeira vez numa igreja ortodoxa (uma igreja russa em San Francisco), algo aconteceu comigo que eu não havia experimentado em qualquer templo budista ou outro oriental; algo em meu coração disse que aquilo era o "lar", que toda a minha busca estava terminada. Eu realmente não sabia o que isso significava, pois a cerimônia era bem esquisita para mim, e numa língua estrangeira. Eu comecei a freqüentar cerimônias ortodoxas mais freqüentemente, gradualmente aprendendo a língua e os costumes, mas ainda mantendo todas as minhas idéias guénonianas básicas sobre todas as tradições espirituais autênticas.

Com minha exposição à Ortodoxia e ao povo ortodoxo, porém, uma nova idéia começou a entrar em minha consciência; que a verdade não era apenas uma idéia abstrata buscada e conhecida pela mente, mas era algo pessoal – uma Pessoa mesmo – buscada e amada pelo coração. E foi assim que eu encontrei o Cristo. Eu hoje sou grato que a minha aproximação à Ortodoxia consumiu vários anos e nada teve de excitação emocional; isso foi influência de Guénon de novo, e me ajudou a me aprofundar na Ortodoxia sem os altos e baixos que alguns convertidos encontram quando eles não estão tão preparados para algo tão profundo quanto a Ortodoxia. Minha entrada na Igreja Ortodoxa ocorreu exatamente ao mesmo tempo em que deixei o mundo acadêmico e desisti do esforço de divulgar a tradição chinesa ao mundo ocidental. Meu professor chinês também deixou San Francisco pouco antes disso – ele que era meu único contato real com a tradição chinesa – e, de um modo bem guénoniano, ele desapareceu completamente, sem deixar endereço. Eu me lembro dele com apreço, mas depois de me tornar ortodoxo eu vi quão limitado era seu ensinamento: a tradição espiritual chinesa, ele disse, desapareceria se o comunismo persistisse na China. Tão frágil era essa tradição! Mas o Cristianismo Ortodoxo que eu encontrara sobreviveria a tudo e resistiria até o fim do mundo, porque ele não era simplesmente legado de geração em geração, como são todas as tradições; mas era, ao mesmo tempo, dado por Deus ao homem.

Eu hoje olho para trás com ternura ao ver René Guénon como meu primeiro professor real na Verdade; e apenas oro para que você retenha o que há de bom nele e não permita que as limitações dele o aprisionem. Mesmo psicologicamente, a "sabedoria oriental" não é para nós, que somos carne e sangue do Ocidente; o Cristianismo Ortodoxo é, claramente, a tradição que nos foi dada – e ela pode ser vista claramente na Europa Ocidental dos dez primeiros séculos, antes que Roma se desligasse da Ortodoxia. Mas também sucede que a Ortodoxia não é meramente uma "tradição" como outra qualquer, um "legado" de sabedoria espiritual do passado; é a Verdade de Deus aqui e agora. Ela nos dá contato imediato como Deus de um modo tal que nenhuma outra tradição pode fazer. Há não poucas verdades nas outras tradições, tanto aquelas legadas do passado, quando o homem estava mais perto de Deus, quanto aquelas descobertas por homens talentosos com as faculdades da mente; mas a Verdade plena está apenas no Cristianismo, a Revelação que Deus faz de Si mesmo à humanidade. Vou mencionar apenas um exemplo: há ensinamentos sobre a ilusão espiritual em outras tradições, mas nunca tão completamente refinados quanto aqueles ensinados pelos Santos Padres Ortodoxos. E o que é mais importante: essas ilusões do maligno e de nossa natureza decaída são tão onipresentes e tão completas que ninguém poderia escapar delas, a menos que o Deus amoroso revelado pelo Cristianismo estivesse perto o suficiente para nos livrar delas. De modo semelhante, a tradição hindu ensina muitas coisas verdadeiras sobre o fim da "Kali Yuga"; mas meramente "conhecer" essas verdades na mente não auxiliará ninguém na resistência às tentações daqueles tempos, e muitos que reconhecerão o Anticristo (Chalmakubi) quando ele vier não obstante o adorarão – apenas o poder do Cristo dado ao coração terá a força para resistir-lhe.

É minha oração para você que Deus abra seu coração e que você faça o que puder para encontrá-Lo. Você encontrará felicidade que nunca sonhou ser possível antes; seu coração se juntará à sua cabeça no reconhecimento do verdadeiro Deus; e nenhuma verdade real que você tenha em algum momento aprendido se perderá. Deus o conceda!

Sinta-se livre para escrever o que lhe passar pela mente ou pelo coração.

Com amor,

Pe. Serafim





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