sexta-feira, 17 de junho de 2016

Monasticismo Ortodoxo 2 - Origens da Prática Cristã


Olhemos para as origens do monasticismo como fenômeno cristão. No Antigo Testamento, encontramos o Profeta Elias como um tipo do monge: ele possui cabelo longo e despenteado; é celibatário e etc. Ao mesmo tempo que Elias, encontramos nas Escrituras fraternidades chamadas de ''Filhos dos Profetas''. As Escrituras silenciam sobre as práticas destes ''Filhos dos Profetas'', mas frequentemente se admite que elas eram monásticas em sua natureza. O Profeta Eliseu, escolido por Elias por ordem divina como seu sucessor, também era celibatário.

Extra-biblicamente, sabemos que por volta dos tempo de Cristo existiu uma fraternidade monástica chamada de ''Essênios'', que é citada pelo historiador Josefo, que afirmou ter passado parte de sua infância entre eles. Entretanto, o Novo Testamento mantém silêncio completo sobre os essênios. Naturalmente, não sabemos o porquê. Mas o silêncio das Escrituras sobre eles indica que não eram considerados pela Igreja nem como cristãos nem como judeus, nem como tendo qualquer conexão com Jesus Cristo ou São João Batista.

Finalmente, temos o próprio São João Batista. Aqui a Escritura é tudo menos silente. É claro que São João Batista é um tipo do monge: possui cabelos mal-cuidados; veste roupas feitas de pelo de camelo e um cinturão em torno da cintura; come gafanhotos e mel silvestre; vive claramente no deserto antes de do chamado profético divino para que pregasse um batismo de arrependimento.

Nos Atos dos Apóstolos, a comunidade cristã primeva é descrita tendo uma vida em comum, onde todos contribuíam para o tesouro comum e recebiam de acordo com suas necessidades, comendo também em uma mesa coletiva. Isto é usualmente tomado na Ortodoxia como um modelo divinamente inspirado de vida cenobítica. Entre os Apóstolos, a maioria era celibatária, especialmente São Paulo, que destaca em uma de suas epístolas que desejava que todos fossem como ele [celibatários], mas que cada um possuía sem próprio dom; e em outro lugar, que aquele que casa faz bem, mas aquele que não casa faz ainda melhor.

No Evangelho, o próprio Jesus Cristo era solteiro. Mais ainda, ao discutir o casamento, Nosso Senhor aponta que existem aqueles que se fazem eunucos pelo Reino dos Céus. Tal é interpretado pela Igreja não como aqueles que se castram fisicamente [o que foi sempre proibido], mas aqueles que adotam o celibato por amor ao Reino de Deus. A este respeito, é bom lembrar a afirmação de São Paulo de que aquele que casa tem de ter cuidado para agradar sua mulher [o mesmo vale para a mulher que casa com relação ao seu marido], enquanto que aquele que não casa pode se dedicar apenas a agradar a Deus. Entretanto, a passagem dos Evangelhos prossegue dizendo que o celibato não é para todos mas somente para aqueles a quem é dado, para aqueles, a passagem esclarece, que possuem esta força. Assim, podemos ver que as Escrituras nos ensinam que o celibato é melhor do que o casamento mas que nem todos são aptos para praticá-lo; e que, mais ainda, o propósito do celibato é libertar a pessoar para que ela se devote somente a Deus, à consecução do Reino dos Céus.

Nas epístolas de São Paulo existem referências a ''viúvas'' ligadas à Igreja e por ela sustentadas. Estas viúvas são tomadas por precursoras do monasticismo feminino. Em um lugar, São Paulo nota que as jovens viúvas deveriam casar de novo porque não se encontravam sólidas em seu compromisso com a castidade permanente e assim postergavam seu compromisso com Cristo.

Nos Atos dos Apóstolos, Dorcas, que foi ressuscitado dos mortos por São Pedro, parece ser um exemplo de uma viúva ligada à Igreja. Quando Pedro vai ao lugar em que os restos de Dorcas se encontram, a ele são mostrados os artesanatos feitos por ela para a Igreja.

Finalmente, fora das Escrituras, o filósofo judeu Fílon de Alexandria, que viveu no século I, escreveu um pequeno trabalho descrevendo os ''terapeutas'' e suas práticas. Os terapeutas viviam ao redor de Alexandria. Não se sabe quem realmente eram, mas uma das teorias era de que se tratavam de monges cristãos primevos.

Monasticismo Ortodoxo I - Filologia e Fontes


Discutamos primeiro o significado dos termos 'monge' e 'monasticismo' a partir de um ponto de vista filológico. As palavras derivam do grego μοναχός, que significa 'solitário'. De fato, o sentido original de 'monge' na Igreja Ortodoxa é 'aquele que vive só'. Pelo que conhecemos do monasticismo, isso significa claramente alguém que renunciou o mundo, o casamento, a família e que se retirou para o deserto. Entretanto, Santo Atanásio o Grande, na sua ''Vida de Santo Antão'', afirma que até o tempo de Antão os monges viviam antes em celas nos limites das cidades do que no afastados no deserto. Podemos tomar isso como um observação prática que se aplicava pelo menos ao Egito em meados do século III.

Olhemos agora para a origem do monasticismo na Igreja Ortodoxa. Vejamos primeiro as condições sociais do Oriente Médio e da Bacia do Mediterrâneo no período clássico tardio. Há algumas áreas que nos interessam mais especialmente: Constantinopla, Capadócia, Síria, Palestina e Egito.

A Síria e a Bacia do mediterrânea eram áreas sofisticadas e cosmopolitas. São Clemente de Alexandria, escrevendo em meados do século II, se refere ao budismo, do mesmo modo que São Cirilo de Alexandria em seus catecismos em meados do século IV. A brevidade dessas menções indicam que o budismo não era uma força séria nestas áreas, mas é importante perceber que a região não era isolada. Havia muito mais interação entre ela e o Oriente do que geralmente se pensa. Mais ainda, existiam várias heresias que eram mais ou menos prevalecentes na área, como por exemplo o maniqueísmo e o gnosticismo. Havia ainda mais interação através do Mediterrâneo, apesar das dificuldades para se viajar, do que geralmente se imagina; podemos perceber isto por meio dos Atos dos Apóstolos. O mundo intelectual destas regiões era muito sofisticado, semelhante aos nossos dias.

Fazemos esta apreciação para montarmos o cenários para nossas considerações sobre o desenvolvimento do monasticismo no Egito e na Síria. Hoje em dia, alguns acadêmicos defendem que Santo Antão, por exemplo, foi, pelo menos nas cartas que lhe são atribuídas, um escritor muito mais sofisticado e não cristão do que se supõe comumente. Nós duvidamos destas afirmações acadêmicas, desprovidas que são do phronema e mentalidade autêntica da Igreja Ortodoxa, mas é bom termos em mente as características da região.

Consideremos agora as fontes de nosso conhecimento do monasticismo ortodoxo. Existem três tipos de fonte primária: a vida dos santos, incluindo o período inicial dos ''Ditos dos Padres do Deserto''; escritos dos próprios santos, especialmente testamento e Typika ['regras'] para as fundações monásticas; e os tratados dogmáticos e ascéticos dos santos ascetas.

A maioria das vidas dos santos disponíveis foram coletadas e publicadas pelo menos no grego original pelos Padres Bolandistas. O ''Ditos dos Padres do Deserto'' foram publicados integralmente em várias edições em francês. A situação na língua inglesa não é boa.

O ''Synaxaria'', as coleções de vida dos santos, são usualmente edições modernas mais equilibradas, enquanto as vidas dos santos originais foram trabalhadas por um ou outro editor, o que é verdade até para a ''Synaxaria'' mais antiga. Assim, as edições críticas da vida dos santos terão preferência. Entretanto, ocasionalmente o único registro que teremos sobre a existência de um santo será uma breve entrada no Synaxarion. Isto ocorre especialmente com os santos anteriores ao Edito de Milão, em 313. Nos casos de um santo asceta anterior a esta data, o Synaxarion é o único registro de práticas ascéticas ou monásticas no período.

Os testamentos e typika do Império Bizantino foram publicados no grego orinal com tradução em inglês pela ''Dumbarton Oaks Research Library'', e a coleção inteira pode ser encontrada de graça on-line em [http://www.doaks.org/typ000.html].

terça-feira, 17 de maio de 2016

Como ler a Filocalia


Instruções do Peregrino Russo sobre como ler a Filocalia:

"Eis que, no sonho, me vejo na cela do monge meu amigo e ele me explica a Filocalia, dizendo:
- Este santo livro está cheio de sabedoria. É um misterioso tesouro de ensinamentos sobre os desígnios secretos de Deus. Não é acessível em qualquer trecho e a qualquer pessoa. Contém lições na medida de cada um: profundas para os espíritos profundos e simples para os espíritos simples. É por isso que pessoas simples como tu não devem ler os livros dos Padres na sequencia em que estão colocados aqui. Trata-se de uma disposição de acordo com a teologia. Mas aquele que não é instruído e deseja aprender a oração interior na Filocalia, deve lê-la na seguinte ordem:
1- em primeiro lugar, ler o livro do monge Nicéforo (na 2ª parte);
2- o livro de Gregório, o Sinaíta, inteiro exceto os capítulos pequenos;
3- as três formas de oração de Simeão, o Novo Teólogo, e seu tratado da Fé;
4- o livro de Calisto e Inácio.
Nesses textos, acha-se o ensinamento completo da oração interior, ao alcance de cada um."


segunda-feira, 16 de maio de 2016

A Linguagem e os Nomes Divinos


O Nome de Cristo está permeado pelas energias divinas:

"[Q]uestão profunda e misteriosa da natureza dos nomes. Serão convencionais, como acredita Aristóteles? Ou, conforme a opinião dos estoicos, são tirados da natureza, em que os primeiros vocábulos imitam os objetos que estão na origem dos nomes - visão segundo a qual eles propõem certos princípios de etimologia? Ou então, conforme a doutrina de Epicuro, divergindo da opinião de Pórtico, os nomes existem naturalmente, e os primeiros vocábulos adequados às coisas? [...] Se pudéssemos, na presente questão, estabelecer a natureza dos nomes "eficazes", alguns dos quais são usados pelos sábios do Egito, pelos doutos entre os magos da Pérsia, pelos brâmanes ou samaneus entre os filósofos da Índia, e assim adiante em cada povo; se fôssemos capazes de provar que aquilo que chamamos magia não é, como pensam os discípulos de Epicuro e de Aristóteles, uma prática de todo incoerente, mas, como demonstram os peritos nesta arte, um sistema coerente, cujos princípios são conhecidos de poucos: diríamos que os nomes Sabaoth, Adonai e todos os outros transmitidos entre os hebreus com grande veneração não são dados segundo realidades comuns ou criadas, mas conforme uma misteriosa ciência divina que é atribuída ao criador do universo. Haveria muitas outras coisas a dizer a respeito dos nomes contra os que pensam que devemos ser indiferentes a seu emprego. E se é verdade que admiramos Platão por ter dito em Filebo: "Minha reverência, Protarco, pelos nomes dos deuses é profunda", quando Filebo, interlocutor de Sócrates, chamara deus o prazer, quando mais haveremos de aprovar a piedade dos cristãos que não aplicam ao Criador do universo nenhum dos nomes em uso nas mitologias!"

 Orígenes, Contra Celso

terça-feira, 29 de março de 2016

Os Erros do Politeísmo e do Monoteísmo Monádico


"Nem Grego nem judeu." Isto se refere a uma diferença, ou mais propriamente uma contradição nos pareceres sobre Deus. A noção grega tolamente introduz uma multiplicidade de princípios e divide o único princípio em energias e forças contrárias. Ele molda um culto politeísta que se torna jocoso por causa da multidão de seus objetos, e ridículo por causa das várias formas de veneração. A noção judaica introduz um princípio único, mas que é pequeno e imperfeito, quase impessoal como privado da razão e da vida. Através de caminhos opostos, ela resulta no mesmo mal que a primeira noção, a descrença no Deus verdadeiro. Ela limita a uma única pessoa o princípio que subsistiria sem a Palavra e o Espírito, ou que possa ser qualificada pela Palavra e pelo Espírito. Esta não contempla o que Deus seria se não tivesse parte com a Palavra e com o Espírito, nem entende como Ele seria Deus tendo parte com estes como se eles fossem acidentes, através de uma participação próxima das dos seres racionais sujeitos a geração. Em Cristo, como já disse, não há nenhuma dessas coisas, mas apenas a realidade de piedade genuína, uma lei firme da teologia mística que rejeita qualquer expansão da divindade, como a primeira noção faz, enquanto não permite qualquer contração assim como a segunda.
Assim, não há dissensão por uma pluralidade de naturezas, o erro grego, nem uma afirmação da unidade da hipóstase, o erro judaico, porque sendo privado da Palavra e do Espírito ou qualificado pela Palavra e pelo Espírito, Deus não é honrado como Mente, Palavra, e Espírito. Isto nos ensina, nós que fomos introduzidos no perfeito conhecimento da verdade por um chamado de graça na fé, a reconhecer que a natureza e o poder da divindade é um, e, portanto, que há um só Deus contemplado no Pai, Filho e Espírito Santo.

... Desta forma, o politeísmo não se introduzirá pela divisão, nem o ateísmo pela confusão. Ao evitar ambos, a compreensão de Deus à luz de Cristo, brilha. Eu chamo a compreensão de Cristo a nova proclamação da verdade ... "nem judeu nem grego", isto é, nenhuma concepção oposta a Deus; "Nem a circuncisão nem a incircuncisão", isto é, não há religiões diferentes, emitidas a partir dessas concepções opostas ... Ambas juntas acabam no mesmo mal, a insolência contra Deus.

São Máximo o Confessor, Comentários sobre o Pai Nosso

domingo, 27 de março de 2016

O Domingo de São Gregório Palamas

 

Cada um dos domingos da Quaresma possui um tema especial, que devem ser entendidos tanto pelo aspecto histórico e pelo espiritual. No domingo de hoje, o Domingo de São Gregório Palamás, o tema é que o homem pode tornar-se divino (teósis) através da graça de Deus no Espírito Santo.
"O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude.
Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo.
2 Pedro 1:4
Foi S. Gregório Palamás que deu testemunho de que através da oração e jejum os seres humanos podem se tornar participantes da Luz Incriada da Glória Divina de Deus, ainda nesta vida.
O tema do primeiro domingo, o Triunfo da Ortodoxia, é a fé, e a fé correta. O tema do segundo é que a consequência necessária da fé é o esforço. As leituras durante a Divina Liturgia de hoje são Hebreus 1:10-2:3 e S. Marcos 2:1-12. Hebreus nos lembra que "é preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido, para que jamais nos desviemos...como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?" A lição do Evangelho traz a imagem do forte desejo transformando-se em esforço por parte do paralítico que é levado até Cristo através do teto.
São Gregório Palamás
Nosso pai entre os santos Gregório Palamás (1296-1359), foi um monge no Monte Athos, na Grécia (nos mosteiros de Vatopedi e Esphigmenou) e mais tarde Arcebispo de Tessalônica.
Nasceu provavelmente em Constantinopla de uma nobre família da Anatólia. Desde jovem sentia-se atraído para a vida monástica e chegou a convencer seus irmãos e irmãs, além de sua mãe viúva, a adotarem a vida monástica. Por volta de 1318, ele e seus dois irmãos foram para o Monte Athos, onde conheceram em primeira mão a tradição hesicástica da oração contemplativa.
Com a aproximação dos Turcos, tiveram que sair de Tessalônica, sendo ordenados padres em 1326. Depois, São Gregório Palamás foi viver como heremita em uma montanha perto de Borea, retornando para o Monte Athos em 1331. Seis anos depois acabaria se envolvendo na polêmica que lhe deu fama, no debate com Barlaam, um monge grego da Calábria, na Itália.
Barlaam acreditava que os filósofos tinham melhor conhecimento de Deus do que os profetas, e considerava a educação e o aprendizado mais valiosos que a oração contemplativa. Ele afirmava de uma forma extrema que era impossível para o ser humano ter qualquer conhecimento objetivo de Deus. Por isso, ele acreditava que os monges do Monte Athos estavam perdendo seu tempo com a oração contemplativa quando deveriam, no seu entender, estar estudando para adquirir conhecimento intelectual.
São Gregório Palamás criticou o racionalismo de Barlaam e obteve como resposta um ataque insultuoso contra a vida dos monges do Monte Athos. A resposta de São Gregório foi um livro chamado "Tríades em Defesa dos Santos Hesicastas" (1338), um trabalho brilhante que foi bem recebido por um concílio local no Monte Athos ocorrido entre 1340-1341.
Também em 1341 reuniu-se um outro Concílio, este em Constantinopla, apoiando S. Gregório Palamás e condenando Barlaam. Mais tarde, em 1344, os oponentes do hesicasmo conspiraram para obter uma condenação por heresia e a excomunhão de Gregório Palamás, mas o ensino teológico dele foi reafirmado em dois outros concílios em 1347 e 1351.
Coletivamente, esses três concílios em Constantinopla são considerados por muitos cristãos ortodoxos e proeminentes teólogos como o Nono Concílio Ecumênico. Entre os dois últimos concílios, Gregório compôs um outro livro, chamado Cento e Cinquenta Capítulos, que é uma explicação concisa de sua teologia.
Em 1347 ele foi consagrado Arcebispo de Tessalônica, mas o clima político tornou impossível que tomasse posse da Sé até quase 1350. Durante uma viagem para a capital imperial, ele foi capturado pelos turcos e mantido prisioneiro por um ano. Ele adormeceu no Senhor em 1359 e foi glorificado (canonizado) pela Igreja Ortodoxa em 1368.
O Ensino de Gregório Palamás
Gregório ensina que os profetas de fato possuem um maior conhecimento de Deus, porque eles verdadeiramente viram ou ouviram o próprio Deus. Sobre como é possível que seres humanos tenham conhecimento de um Deus transcendente e incognoscível, ele lembrou a distinção entre conhecer Deus em essência (em grego ουσία) e conhecer Deus em suas energias (em grego ενέργειαι). Ele defendeu a doutrina Ortodoxa de que é impossível conhecer Deus em essência (Deus em Si mesmo), mas é possível conhecer Deus em Suas Energias (conhecer o que Deus faz, e Quem Ele é em relação com a criação e com o homem), como Deus revela-Se para a humanidade. Para tal defesa ele fez muitas referências aos Pais Capadócios e outros escritores cristãos.
São Gregório ainda afirma que quando os Apóstolos Pedro, Tiago e João testemunharam a Transfiguração de Jesus Cristo no Monte Tabor, eles de fato viram a Luz Incriada de Deus, e que é possível que outros recebam o dom de ver essa mesma Luz de Deus com o auxílio do arrependimento, da disciplina espiritual e da oração contemplativa, embora continue sendo um dom que Deus concede se quiser, e não um efeito automático ou mecânico.
Ele continuamente enfatizava a visão bíblica de que o ser humano é um todo integrado, tanto corpo quanto alma. Portanto, dizia ele, o lado físico da oração hesicasta é um elemento necessário da vida contemplativa monástica, e que a visão que alguns monges diziam ter da luz incriada era legítima. Assim como S. Simeão, o Novo Teólogo, ele também dava grande ênfase para seu ensino espiritual sobre a visão da Luz Divina.

Citações de São Gregório Palamás:

"Quando buscamos com diligente sobriedade manter vigilância sobre nossas faculdades racionais, controlá-las e corrigi-las, como poderemos ter sucesso em tal tarefa se não for concentrando nossa mente, a qual vive dispersa pelos sentidos, e trazendo-a de volta ao mundo interior, ao próprio coração, que é o armazém de todos os pensamentos?"
"Porque Deus é a bondade em si mesma, verdadeira misericórdia e um abismo de amor sem fim - ou, melhor dizendo, Ele contém em si tal abismo porque Ele transcende qualquer nome que seja nomeado e qualquer coisa que possamos conceber - mas porque Ele é tudo isso, nós podemos receber misericórdia apenas através da união com Ele. Unimo-nos a Ele, o tanto quanto isso é possível, através da participação nas virtudes divinas e entrando em comunhão com Ele através da oração e do louvor. Porque tais virtudes são similitudes de Deus, a participação nelas coloca-nos em um estado adequado a recebermos Deus, embora não nos una com Ele ainda".

Tropário de São Gregório Palamás
Ó Luz da Ortodoxia, professor da Igreja e sua confirmação
Ó ideal dos monges e invencível campeão dos teólogos
Ó miraculoso Gregório, glória de Tessalônica e pregador da graça
intercede sempre por nós perante o Senhor para que nossas almas sejam salvas

Kontákion de São Gregório Palamás
Santo e divino instrumento da sabedoria
jubilosa trombeta da teologia
juntos cantamos-te louvores, Ó Inspirado de Deus, Gregório
Já que agora estás diante da Mente Original, guia nossas mentes a Ele, Ó pai
para que cantemos-te assim: "Alegra-te, pregador da graça"


Tradução de OrthodoxWiki por Fabio Leite

segunda-feira, 7 de março de 2016

O Homem Oculto no Coração


Todos os mandamentos da Imaculada Igreja são oferecidos ao mundo com o único objetivo de revelar o ''coração profundo'' (cfd. Sl. 64:6), o centro da Hipóstase do homem. De acordo com as Sagradas Escrituras, Deus modelou cada coração de uma maneira especial, e cada coração é Seu alvo, um lugar interno em que Ele deseja habitar e em que pode Se manifestar.
Já que o Reino de Deus está dentro de nós (cf. Lucas 17:21), o coração é o campo de batalha de nossa salvação, e todo o esforço ascético tem por fim sua purificação de toda imundície e a preservação de sua pureza diante do Senhor. ''Guarda teu coração com toda diligência; porque dele procedem todas as fontes da vida'', exorta Salomão, o rei sábio de Israel (Prov. 4:23). Estes caminhos de vida passam através do coração do homem, e portanto o desejo inextinguível de todo aquele que busca a Face do Deus vivo é que seu coração, que foi mortificado pelo pecado, seja de novo aceso por Sua Graça.

O coração é o verdadeiro ''templo'' do encontro entre o homem e o Senhor. O coração do homem ''busca o conhecimento'' (Prov. 15:14), tanto intelectual quanto divino, e não encontra descanso até que o Senhor da Glória venha habitar em seu interior. Deus, por sua vez, que é um ''Deus ciumento'' (Ex. 34:14), não vai se acomodar em uma mera fração do coração. No Velho Testamento ouvimos Sua voz clamando, ''Meu filho, dê-me teu coração'' (Prov. 23:26); e no Novo Testamento Ele ordena: ''Você deve amar o Senhor com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com toda a tua mente, e com toda a tua força'' (Mat. 12:30). Foi Ele quem formou o coração de cada homem de um modo único e irrepetível, apesar de nenhum poder contê-lo plenamente porque ''Deus é maior do que nosso coração'' (1 João 3:20). No entanto, quando o homem consegue voltar a integridade de seu coração para Deus, o próprio Deus o fecunda com a semente incorruptível de Sua Palavra, o sela com seu assombroso Nome, e o faz brilhar com Sua presença carismática e perpétua. Ele o torna um templo de Sua Divindade, um templo que não foi erguido por mãos, capaz de refletir Sua ''imagem'' e escutar Sua ''voz'' e ''Portar'' Seu Nome (cf. João 5:37, Atos 9:15). Em uma palavra, o homem realiza o propósito de sua vida, a razão de sua vinda à existência neste mundo transitório.

A grande tragédia de nosso tempo está no fato de que vivemos, falamos, pensamos, e até mesmo oramos para Deus de fora de nosso coração, de fora da casa de nosso Pai. E verdadeiramente a casa de nosso Pai é nosso coração, o lugar onde ''o espírito da glória e de Deus'' (1 Ped. 4:14) encontraria repouso, em que Cristo pode ''ser formado em nós'' (Gal. 4:19). em verdade, só então podemos nos tornar completos, e nos fazermos hipóstases à imagem da verdadeira e perfeita Hipóstase, o Filho e Palavra de Deus, Quem nos criou e redimiu com o sangue precioso de Seu inefável sacrifício.

Enquanto formos escravos de nossas paixões, que distraem nossa mente de nosso coração e a seduz para o mundo sempre mutável e vão das coisas criadas e naturais, nos privando assim de toda força espiritual, não conheceremos o novo nascimento do Alto que nos faz filhos de Deus e deuses pela Graça. De fato, de uma maneira ou de outra, somos todos ''filhos pródigos'' de nosso Pai que está nos Céus, porque, como testificam as Escrituras, ''todos pecaram, e ficaram privados da glória de Deus'' (Rom. 3:23). O pecado separa nossa mente da contemplação vivificante de Deus e nos leva para uma ''terra estrangeira'' (Lucas 9:15). Nesta ''terra estrangeira'' ficamos privados do abraço do Pai e, nos alimentando com os porcos, nos submetemos aos demônios. Nos entregamos a paixões desonrosas e à terrível fome do pecado, que estabelecida pela força, torna-se a lei de nossos membros. Mas agora temos de sair deste inferno sem Deus e retornar à casa do Pai, de modo a arrancar a lei do pecado que está dentro de nós para permitir que a lei dos mandamentos de Cristo residam em nosso coração. Pois o único caminho que nos distancia dos tormentos do inferno e nos guia para a beatitude eterna do Reino é aquele dos divinos mandamentos: com todo o nosso ser temos de amar Deus e nosso próximo com um coração livre de todo pecado.

A jornada para fora desta terra remota e inóspita não é fácil, e não há fome mais temível do que a de um coração assolado pelo pecado. Aqueles cujos corações estão plenos do consolo da incorruptível graça conseguem suportar todas as privações externas e aflições, transformando-se em um banquete de alegria espiritual; mas a fome em um coração endurecido pela ausência do consolo divino é um tormento desolador. Não há desdita maior do que a de um coração petrificado e insensível que é incapaz de distinguir entre o Caminho luminoso da Providência de Deus e a confusão sombria dos caminhos deste mundo. Por outro lado, através de toda a história têm existido homens cujos corações estavam repletos da Graça. Estes vasos escolhidos foram iluminados pelo espírito da profecia, e estavam desse modo aptos a distinguir entre a Luz Divina e as trevas deste mundo.

Não importa o quão difícil e assustadora seja a luta pela purificação do coração, nada deve nos impedir de levá-la adiante. Temos ao nosso lado a bondade inefável de um Deus que fez do coração do homem Seu escopo e interesse pessoal. No Livro de Jó, lemos as surpreendentes palavras: ''Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração? E cada manhã o visites, e cada momento o proves? ... Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?'' (Jó 7:17-18, 20). Sentimos Deus, que é incompreensível, perseguindo o coração do homem: ''Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.'' (Rev. 3:20). Ele bate na porta de nosso coração, mas também nos encoraja a bater na porta de Sua Misericórdia: ''Batam, e as portas lhes serão abertas'' (Lucas 11:9-10). Quando as duas portas, a da bondade de Deus e a do coração do homem, se abrem, então ocorre o maior milagre da existência: o coração do homem se une com o Espírito do Senhor, Deus ceando com os filhos dos homens.

Nos privamos do festim da consolação de Deus não apenas quando nos entregamos à corrupção do pecado, alimentando-nos com porcos em um país estrangeiro, mas também quando lutamos de um modo negligente. '' Maldito aquele que fizer a obra do Senhor fraudulosamente'', avisa o profeta Jeremias (Jer. 48:10). Na alimentação junto aos porcos, é o diabo, nosso inimigo, que nos dá um trabalho maldito. Mas se realizamos o serviço do Senhor pela metade, nos colocamos sob maldição, pois deveríamos estar habitando na casa do Senhor. Pois Deus não vai tolerar divisão no coração do homem; Ele se agrada somente quando o homem fala com ele com todo seu coração e realiza feliz seu trabalho: ''Deus ama ao que dá com alegria'', disse o Apóstolo (2 Cor. 9:7). Ele quer que a totalidade de nosso coração se volte e se devote a Ele, e só então o preencherá com as dádivas de Sua bondade e os dons de Sua compaixão. Ele ''semeia abundantemente'' (cf. 2 Cor. 9:6), mas espera o mesmo de nós.

Desde os primeiros pensamentos que mencionamos vimos o quão precioso é permanecer diante de Deus com o coração íntegro enquanto o colocamos diante Dele. Também começamos a entender o quanto é vital a tarefa de descobrir o coração, porque isto nos permite caminhar para nosso Deus e Pai a partir do coração e sermos ouvido por Ele, e lhe darmos o direito de realizar o trabalho de nossa renovação e restauração à honra original partilhada por Seus filhos.
Enquanto um homem estiver sob domínio do pecado e da morte, entregue ao poder do mal, ele se torna cada vez mais egoísta. Em seu orgulho e desespero, e estando separado de Deus, que é bom, luta para sobreviver, mas a única coisa que conquista é uma pesada maldição sobre si e uma desolação ainda maior. Mas não importa o quanto ele esteja corrompido pela fome do pecado, o dom fundamental de ter sido criado à ''imagem e semelhança'' de Deus permanece irrevogável e indelével. Assim, ele sempre carrega dentro de si a possibilidade de ascender do reino da escuridão para o reino da luz e do fogo. Isto ocorre quando ele ''cai em si'' e a alma dolorida confessa, ''eu pereço de fome'' (Lucas 15:17).

Quando o homem decaído ''cai em si'' e se volta para Deus, ''é tempo do Senhor trabalhar'', como dizemos no início da Divina Liturgia; em dor, o homem entra em seu próprio coração, que é a maior honra reservada por Deus para o homem miserável. Deus sabe que agora pode seriamente conversar com ele, e lhe dá atenção, pois quando o homem adentra seu coração fala com Deus com conhecimento de seu estado real, pelo qual agora se sente responsável. De fato, a luta inteira do homem é feita de modo a convencer Deus de que é Seu filho, e quando O convence, então ouvirá em seu coração aquelas grandes palavras do Evangelho, ''Tudo o que eu tenho é teu'' (Lucas 15:31). E no momento em que convence Deus que ele é Seu, Deus faz com que fluam as cachoeiras de Sua compaixão, a vida de Deus se torna a sua vida. Este é o deleite para o qual Deus criou o homem em Seu plano original. Deus diz para aquele que foi bem sucedido em persuadi-lo de que é Seu, ''Toda minha vida, ó homem, é tua vida''. Então o Senhor, que é Deus por natureza, garante ao homem Sua própria vida, e o homem se torna um deus por graça.

Arquimandrita Zacarias