sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Céu e a Terra no Ícone


Esta é a terceira parte da reflexão sobre cosmologia iniciada em "Durante a Maior Parte do Tempo a Terra é Plana" e estendida em "Onde é o Céu?"

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Um dos propósitos principais do ícone, em sua imitação do próprio Senhor é participar da conexão do Céu e da Terra. Ao tornar visível em termos terrenos - nas pessoas, nos acontecimentos e nas coisas - um vislumbre da verdade celestial, eles nos conduzem à transfiguração do mundo. Esta transfiguração está além das palavras,  mas como todas as verdades místicas, podemos no entanto contorná-la, apontar as margens dessa visão para nos ajudar a participar dela mais plenamente.

Esta possibilidade de unir o Céu e a Terra está ancorada nas definições cristológicas da Igreja, na dualidade das naturezas Divinas e Humanas unidas em uma só pessoa. Mesmo antes de olhar para exemplos específicos de alguns ícones, a possibilidade cristã do Ícone em si já é um "ícone", já é uma imagem da união de Cristo do Céu e da Terra. Isto assume uma ênfase particular porque, ao contrário da música, da liturgia ou da poesia, o ícone é uma experiência totalmente espacial, que assim como todas as imagens se apresenta completamente em um "instante". Portanto, a analogia espacial da relação entre o Céu e a Terra é capturada mais imediatamente e mais explicitamente no ícone do que em outras artes litúrgicas. O ícone é um daqueles lugares onde o escândalo da encarnação é mais claramente visto, sendo provavelmente uma das razões pelas quais o ícone tem sido uma fonte de grande celebração e grande conflito na história do cristianismo. Poderíamos dizer que, durante toda a vida da Igreja a "capacidade de unir os reinos do céu e da terra continuou a ser a chave do mistério teológico dos ícones e permitiu que eles resistissem às mais severas tempestades teológicas, psicológicas e emocionais" (1). "

E assim dentro da própria estrutura do ícone, a relação do Céu e da Terra está visivelmente presente, presente da maneira mais simples e óbvia, tão simples que seu significado profundo pode facilmente ser contemplado. Em vários ícones, especialmente aqueles que representam cenas, como ícones festais, por exemplo, o espaço visual é organizado em uma hierarquia simples. O céu está acima. A Terra está abaixo, o mundo é todo no meio. O topo do ícone torna-se o limite do mundo visível "quantificável", levando o observador a uma verdade espiritual invisível - o Céu no sentido metafísico do "ato" puro ou do "logotipo" invisível. A parte inferior do ícone torna-se o limite do que poderíamos chamar de mundo "ordenado" visível, levando ao caos abaixo - a terra no sentido metafísico de "matéria" potencial ou invisível. O Hades, a morte e todos os seus mistérios são subterrâneos e os anjos, as teofanias e a luz divina vêm dos céus. Tudo entre o topo e o fundo do ícone é o próprio mundo, o Cosmos criado, que pode ser acessado através da imagem e do símbolo. E já que o Cosmos está organizado para mostrar essa mesma relação do Céu e da Terra, então o que está visivelmente acima no ícone pode muitas vezes nos mostrar o Céu invisível, enquanto o que está visivelmente abaixo no ícone pode nos mostrar a terra invisível.


Poderíamos tomar como uma verdade geral básica (embora existam sempre exceções) que o ícone é organizado como uma escada, e por sua representação plana de um espaço hierárquico nos mostra o que significa o céu e terra, nos mostra por que dizemos que Deus está no Céu e por que dizemos que o Inferno está na Terra. Alguns podem achar que estou estendendo as palavras para afirmar o óbvio, mas é aqui que eu preciso lembrar o leitor mais uma vez de nossa cosmologia esquizofrênica. É aqui que eu preciso lembrar ao leitor que a maioria de nós, a maior parte do tempo, vivemos em um mundo onde satélites de TV e aviões a jato estão nos Céus e deixamos de ver como os Céus Visíveis são a imagem da verdade espiritual invisível . O ícone faz nos ver o que a ciência moderna não pode fazer, ou seja, o ícone não tenta dar uma descrição técnica de um espaço e movimento que não podemos experimentar sem idealizações complexas, mas sim nos mostra o significado, a razão da nossa mais imediata experiência humana.


Precisamos estar cientes disto, pois muitas vezes ouvimos que o ícone representa a realidade "transfigurada", que representa a verdade "espiritual", mas esses tipos de afirmações podem muitas vezes se tornar simples e vazias formas de  cegueiras, as quais nos impedem de ver o que realmente está lá em um ícone. Nossas declarações sobre ícones como "janelas" para o Céu podem funcionar como um brilho naquela janela que nos faz pensar que vemos sem realmente ter que olhar. É somente se olharmos com olhos reverentes tanto para o ícone como para o mundo que nos rodeia, que conseguiremos começar a ver a Luz do Céu brilhando através da densa esfera terrestre.

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1. Fr. Andreas Andreopoulos, Metamorphosis: the Transfiguration in Byzantine Theology and Iconography. p.14. St-Vladimir’s Seminary Press, 2005
Fonte:http://www.orthodoxartsjournal.org/heaven-and-earth-in-the-icon/

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O Simbolismo do Analavos do Grande Esquema.

"...o justo será flagelado, torturado, amarrado; seus olhos serão queimados e por fim, depois de sofrer todos os males, será crucificado..." [Platão, República, II, 361 e-362 a]

Aqueles que tomaram os votos do Grande Esquema devem viver como anjos na carne e atingir a perfeição espiritual, tendo a constante contemplação de Deus e o silêncio como vocação. A vestimenta do Grande Esquema contém os sinais do perfeito monaquismo, símbolos não apenas da humildade, sabedoria e doçura, mas também da Cruz, do sofrimento, das feridas de Cristo, da constante morte junto ao Cristo.

O άνάλαβος (analavos) é o traje distintivo de um monge ou uma monja tonsurado no mais alto grau do monaquismo ortodoxo, o Grande Esquema, e é adornado com os instrumentos da Paixão de Cristo. Ele toma seu nome do grego αναλαμβάνω ("tomar"), servindo como um lembrete constante para quem o usa de que ele ou ela deve "tomar a sua cruz diariamente" (Lucas 9:23). As cruzes ornadas, que cobrem os analavos, ou polystavrion (πολυσταύριον, de πολύς, "muitos" e σταυρός, "Cruz") - um nome frequente, embora menos preciso também aplicado aos analavos - lembra ao monástico que ele ou ela "está crucificado com Cristo" (Gálatas 2:20).

Com relação a cada imagem nos analavos, o galo representa "o galo [que] cantou" (Mateus 26:74, Marcos 14:68, Lucas 22:60, João 18:27) depois que São Pedro "negou três vezes" Seu Mestre e Senhor (João 13:38).

A pilastra representa a coluna à qual Pilatos amarrou Cristo "quando o flagelou" (Marcos 15:15) e "por cujas feridas fomos curados" (Isaías 53: 5; I Pedro 2:24).

A coroa de grinaldas da cruz representa a "coroa de espinhos" (Mateus 27:29, Marcos 15:17 e João 19: 2) que "os soldados colocaram" (João 19: 2) e "puseram sobre a cabeça" de "Deus nosso Rei" (Salmo 73:13), que libertou o homem da luta contra os "espinhos e abrolhos e o suor de sua testa" (Gênesis 3: 18-19).

O poste ereto e a viga transversal representam os estípites e o patibulum que formaram a "Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo" (Gálatas 6:14), sobre a qual "durante todo o dia estendeu as mãos a um povo desobediente e adverso" ( Isaías 65: 2, Romanos 10:21).

As quatro pontas no centro da Cruz e o martelo sob sua base representam as "unhas" (João 20:25) e o martelo com que "perfuraram" (Salmo 21:16, João 19:37) "Suas mãos e Seus Pés "(Lc 24:40), quando "levantaram da terra" (João 12:32) Aquele que "apagou a letra das ordenanças que estava contra nós pregando-a na Sua Cruz" (Colossenses 2:14).

A base sobre a qual se encontra a Cruz representa "o lugar que se chama Calvário "(Lucas 23:33), ou "Gólgota", isto é, o "Lugar da Caveira" (Mateus 27:33), onde "Eles o crucificaram "(João 19:18) e que "operou a salvação no meio da terra" (Salmo 73:13).

O crânio e os ossos cruzados representam "o primeiro homem Adão" (I Coríntios 15:45), que por tradição "retornou à terra" (Gênesis 3:19) neste mesmo lugar, a razão pela qual este lugar de execução, "cheio de ossos dos homens mortos"(Mateus 23:27) tornou-se o lugar onde "o último Adão foi feito um espírito vivificante" (I Coríntios 15:45).

A placa em cima da cruz representa o "título" (João 19: 19-20), com "a inscrição de Sua acusação" (Marcos 15:26), que "Pilatos escreveu" (João 19:19) "e colocou sobre Sua cabeça" (Mateus 27:37). Ao invés de "Jesus de Nazaré, rei dos judeus" (João 19:19), que "estava escrito em letras do grego, latim e hebraico" (Lc 23,38), sendo as três línguas uma alusão às Três Hipóstases "do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mateus 28:19), este título diz: "O Rei da Glória" (Salmo 23: 7-10), pois eles saberiam disso se não tivessem "crucificado o Senhor da glória"(1 Coríntios 2: 8).

O junco  representa o "hissopo" (João 19:29) sobre o qual foi colocada "uma esponja cheia de vinagre" (Marcos 15:36), e então "posta à Sua boca" (João 19:29), quando em Sua "sede lhe deram vinagre para beber" (Salmo 68:21), na boca d'Aquele de Quem se disse que "todos se maravilharam com as palavras de graça que saíram de Sua boca" (Lucas 4:22).

A lança representa a "lança [que] perfurou Seu lado"; "E imediatamente saiu sangue e água" (João 19:34) d'Aquele que "tomou uma das costelas de Adão, e fechou a carne em seu lugar" (Gênesis 2:21) e que "nos lavou de nossos pecados em Seu Próprio sangue "(Apocalipse 1: 5).

A placa no fundo da cruz representa o suppedaneum de Cristo, "o lugar onde seus pés estiveram" (Salmo 131: 7). É inclinado porque, de acordo com uma tradição, no momento em que "Jesus clamou em alta voz, e entregou o Seu espírito" (Marcos 15:37), Ele permitiu que um espasmo de morte violento convulsionasse Suas pernas, desalojando Seu apoio de pés de tal maneira que uma das extremidades apontasse para cima, indicando que a alma do ladrão penitente, São Dimas, "aquele que está à sua direita" (Marcos 15:27) seria "levado para o Céu" (Lc 24:51). Enquanto a outra extremidade, apontada para baixo, indicava que a alma do ladrão impenitente, Gestas, "o outro à Sua esquerda" (Marcos 15:27), seria "empurrada para o Inferno" (Lucas 10:15), mostrando que Todos nós, "os maus e os bons, os justos e os injustos" (Mateus 5:45), "são pesados no equilíbrio" (Eclesiástico 21:25) da Cruz de Cristo.

A escada e as pinças sob a base da Cruz representam o meio de deposição pelo qual São José de Arimatéia, "um homem rico" (Mateus 27:57) que "implorou pelo corpo de Jesus" (Mateus 27:58; 23:52), "abaixou-se" (Lucas 23:53), de modo que, como no corpo Ele desceu da Cruz, assim na alma "Ele também desceu primeiro até as partes mais baixas da terra" (Efésios 4: 9) , "Pelo qual também Ele foi e pregou aos espíritos em cativeiro" (no Hades) (I Pedro 3:19).

Através desses instrumentos, "a Cruz de Cristo" (I Coríntios 1:17, Gálatas 6:12, Filipenses 3:18) tornou-se a "Árvore da Vida" (Gênesis 2: 9, 3:22, 24, Provérbios 3:18, 11:30; 13:12; 15: 4, Apocalipse 2: 7; 22: 2,14), pelo qual o Senhor Jesus reificou Suas palavras: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá, e todo aquele que vive e crê em Mim, jamais morrerá "(João 11: 25-26).

• ΟΒΤΔ - ΌΒασιλεύς της Δόξης - "O Rei da Glória"

• ΙC XC NIKA - Ιησούς Χριστός νικά - "Jesus Cristo vence"

• ΤΤΔΦ - Τετιμημένον τρόπαιον δαιμόνων φρίκη - "Troféu honrado, o temor de demônios"

• ΡΡΔΡ - Ρητορικοτέρα ρητόρων δακρύων ροή - "Um fluxo de lágrimas mais eloquente do que oradores" (ou, mais provavelmente: Ρητορικοτέρα ρημάτων δακρύων ροή)

• ΧΧΧΧ - Χριστός Χριστιανοίς Χαρίζει Χάριν - "Cristo despejou graça sobre os cristãos"

• ΞΓΘΗ - Ξύλου γεύσις θάνατον ηγαγεν - "A degustação da árvore provocou a morte"

• CΞΖΕ - Σταυρού Ξύλω ζωήν εύρομεν - "Através da Árvore da Cruz nós encontramos a vida"

• ΕΕΕΕ - Ελένης εύρημα εύρηκεν Εδέμ - "A descoberta de Helena descortinou o Éden"

• ΦΧΦΠ - Φως Χριστού φαίνοι πάσι - "A luz de Cristo brilha sobre todos"

• ΘΘΘΘ - Θεού Θέα Θείον Θαύμα - "A visão de Deus, uma maravilha divina"

• ΤCΔΦ - Τύπον Σταυρού δαίμονες φρίττουσιν - "Demônios temem o sinal da cruz"

• ΑΔΑΜ - Αδάμ - "Adão"

• ΤΚΠΓ - Τόπος Κρανίου Παράδεισος γέγονε - "O local do Crânio tornou-se o Paraíso"

• ΞΖ - Ξύλον Ζωής - "Árvore da vida"


Há outros itens e abreviaturas que podem aparecer nos analavos, mas estes já são o suficiente para demonstrar que essa santa roupa proclama em silêncio "a pregação da Cruz" (I Coríntios 1:18) através de seu simbolismo místico, declarando para seu portador: "Deus não permita que eu me glorie, salvo na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem o mundo é crucificado em mim, e eu para o mundo" (Gálatas 6:14).

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Onde é o Céu?

A Maior Parte do Tempo a Terra é Plana Parte II

(Depois receber diversos comentários furiosos de típicos cientificistas ao meu último artigo, pensei ser necessário desacelerar as coisas um pouco de modo a me fazer mais claro, e assim vou falar da arte sagrada de modo mais direto na próxima parte dessa série)


Moisés Recebe a Lei. Bíblia do ´Seculo X
Em 1922, Pavel Florensky escreveu um artigo em seu ''Valores Imaginários na Geometria'' em que tenta usar a teoria geral da relatividade para mostrar que, considerando a relatividade do movimento, é possível desenvolver um modelo matemático perfeitamente coerente no qual a Terra é a referência. Esse modelo corresponderia, na verdade, às descrições cosmológicas de Ptolomeu. Esse artigo foi uma das razões dadas pelo Estado comunista para seu julgamento e execução, uma piada de humor negro se levarmos em conta a retórica usual da ''religião violenta'' contra ''a ciência iluminada'' que aprendemos na escola primária a respeito da censura a Galileu. O que é interessante sobre o artigo de Florensky é principalmente a razão que ele tinha para escrevê-lo. Ele afirmava que, apesar do modelo copernicano ser bom,

''o sistema de Ptolomeu é preferível dada a sua conformidade com o senso comum e à experiência terrena, por ser verdadeiramente crível, conforme a razão filosófica, e, finalmente, em conformidade com as regras da geometria''.[1]
Pavel Florensky em 1933, antes de ser executado pelo comando de Stalin
Esse impulso encontraria outros seguidores no século XX. Compreendendo o efeito alienante da cosmologia moderna, muitos pensadores reivindicariam a antiga visão cosmológica em diferentes graus e de diferentes maneiras, em um desejo de trazer de volta o conhecimento para a experiência e de empurrar a ação humana de volta para a esfera da ''sabedoria'', que se trata de priorizar o que homem DEVE fazer em relação ao que ele pode fazer. Dentre esses pensadores se inclui C.S. Lewis [2] mas também candidatos bem menos óbvios, tais como os fundadores da escola filosófica de ''fenomenologia'' Edmundo Husserl [3] e Martin Heidegger. Por exemplo, no ''Origem da obra de Arte'', Heidegger reivindica a Terra como categoria metafísica e nos avisa:

''O que esse mundo (Terra) significa está muito distante da idéia de uma massa de matéria e da ideia meramente astronômica de planeta. A Terra é aquilo para o qual retorna e em que é abrigada o surgimento de todas as coisas que surgem -- como, de fato, a coisa mesma que é. Das coisas que surgem, a terra se apresenta como a protetora''. [4]

Essa é uma visão muito bela da Terra, uma que eu ousaria dizer que se adequa à Ortodoxa, da terra como Matrix do mundo, aquela da qual surge todo fenômeno e para o qual retornam ''como de fato a coisa mesma que é'' -- ''do pó você veio e ao pó você retornará''. Mas também descobrimos a Terra como protegendo, abrigando, escondendo a ''semente'' da ressurreição em seu interior.

A formulação de Heidegger nesse caso é tão somente a reafirmação da visão arcaica do Céu e da Terra como os dois ''pólos'' da Criação, as duas categorias metafísicas originais que foram criadas ''no início'', no Princípio, no ἀρχῇ, בְּרֵאשִׁית da criação. Se queremos entender o espaço dos ícones ou das igrejas precisamos encarar o Céu e a Terra, precisamos vê-los como as duas categorias que aparecem universalmente em todas as culturas, seja o grego Urano e Gaia, os chineses Yang e Yin, ou os ameríndios Pai Céu e Mãe Terra.

No artigo de Florensky sobre o geocentrismo, ele usa da Divina Comédia de Dante como base para seu pensamento e até mesmo para seus cálculos. Penso que, embora possamos contestar a ortodoxia de Dante, a intuição de Florensky foi muito profunda. Porque Dante permanece na beira do declínio espiritual ocidental, encarando talvez inconscientemente o esvanecimento gradual de todo o Realismo simbólico da experiência ocidental [5] Nessa posição, Dante cria em sua Comédia uma bonita síntese de um cosmos tradicional enquanto realiza vários pronunciamentos quase proféticos e ao mesmo tempo esclarecedores e admoestações para o leitor moderno. [6]

Dante se move, na Divina Comédia, por uma jornada espiritual para baixo, para o centro da Terra, e então se move para cima para a montanha do Purgatório, e finalmente escala as esferas celestes como se todo o cosmos fosse uma escada em que:

''[...]Todas as coisas quaisquer que sejam
Estão ordenadas entre si, é dessa forma
Que o Universo se assemelha com Deus.
Aqui as criaturas superiores vêem as pegadas
do Poder Eterno...''

Esse tipo de hierarquia está, claro, profundamente baseada na ''Hierarquia Celeste'' de São Dionísio Areopagita, que reinterpreta o pensamento neoplatônico em um molde cristão. De certa maneira, Dante une a hierarquia ontológica do Areopagita com a Escada de Virtudes que encontramos em São João Clímaco. No canto 29 do Paraíso, Dante alcança a esfera mais elevada da Criação, o Primeiro Motor. E ali, Beatriz, sua guia, une belamente a visão Ptolomaica com as idéias de Aristóteles ao afirmar:

''A Ordem foi co-criada e construída
Em substâncias, e o cume do mundo
Foi aquele em que o Ato Puro foi produzido.

A Pura potencialidade susteve a parte inferior;
A Intermediária uniu a potencialidade com o ato
Com tal vínculo que jamais será desfeito''

Essa união das categorias metafísicas de Aristóteles em um modelo cosmológico que coloca o Céu e a Terra como os dois pólos da Criação repete com muita clareza para nós ''o que'' Céu e Terra são. Essa dualidade entre ''ato'' e ''potência'', ''energeia'' e ''dynamis'', espelha perfeitamente a visão bíblica da Criação em que o Logos de Nosso Pai nos Céus comanda a Terra a ''gerar'' a criação, poderíamos dizer a ''apresentar'' o mundo se quisermos usar a linguagem heideggeriana.

Em cana nível da escada cósmica de Dante, toda atividade humana é vista hierarquicamente como mais próxima ou mais distante da Luz Divina, participando em Deus ''na medida de sua capacidade'', para parafrasear São Máximo.

''...tudo torna belo o primeiro círculo
E possui a doçura da vida em diferentes graus
Ao sentir mais ou menos o sopro eterno''

Dante e Beatriz ascendem em direção ao Sol. Manuscrito Italiano do Século XIV.
Na medida em que Dante escala as esferas planetárias, encontra diferentes níveis de almas na Lua, em Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno. Mas, como que para precaver o leitor de ficção científica moderna de algum tipo de interpretação materialista, Beatriz explica a Dante no nível inferior do Céu que as almas:

''...mostram-se aqui, não porque repartida
Esta esfera tenha sido entre eles, mas para sinalizar
O celestial a partir do que é menos exaltado.

Falar assim é adequando à sua mente,
Visto que somente por meio dos sentidos é apreendido,
Aquilo que é então digno do intelecto.

Por causa disso as Escrituras condescendem
Com suas faculdades, e atribui pés e mãos
a Deus, embora significando outra coisa;

E a Santa Igreja sob um aspecto humano
Representa Gabriel e Miguel para vocês,
E aquele que fez de novo Tobias completo''.

A aqui temos a cruz. Aqui se encontra o ponto em que o leitor moderno pode se extraviar e em que é importante puxar as rédeas de sua mente. Beatriz está dizendo a Dante que as almas não habitam as esferas celeste visíveis dos planetas, mas que isso é encontrado assim por uma ''concessão'', isto é, a descida de uma verdade mais elevada em uma linguagem passível de ser alcançada. Ela então lhe diz que isso se aplica às Escrituras também. Dependendo se o leitor é de um tipo ''conservador'' ou ''liberal'', ele ou ela podem ficar ou particularmente ofendidos ou sentir-se maravilhosamente liberados por tal proposição, pensando: ''Aha!, ele está dizendo que suas próprias descrições assim como também as das Escrituras são MERAMENTE simbólicas, metáforas!", implicando um tipo de liberdade para que qualquer outra imagem pudesse ser usada de modo a transmitir a mesma mensagem.

É claro que aquilo que Dante diz através de Beatriz era óbvio para os antigos. É por causa disso que a Bíblia fala do Céu dos Céus (algumas vezes traduzido por Céu Superior). E apesar do fato de podermos dizer sem vacilar ''Nosso Pai que está nos Céus'', sabemos claramente que nem mesmo ''Os Céus dos Céus podem Te conter'' (1 Reis 8:27). Mas afirmar que Deus está nos Céus é a imagem mais adequada para Deus, não é arbitrária ou simplista ou materialista, mas está ancorada analogicamente no que encontramos acima de nós, da maneira mesma em que ''porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas'' (Romanos 1:20) Isso não é somente caso de interpretação de histórias e textos mas é o modo mesmo em que os Céus se apresentam a nós, o modo mesmo através do qual, por seu ''logos'', todos os fenômenos apontam para a vida Divina. Os céus visíveis SÃO uma imagem dos Céus dos Céus, e eles são a melhor imagem para a hierarquia espiritual.

Mas o que é esse céu vísivel, que é esse ''acima'' que nos ajuda a entender Deus? A linguagem das alturas está tão entrelaçada a nossa linguagem que constantemente nos referimos à hierarquia das coisas como superiores, estando no topo, no cume, ascendente ou caindo. Mesmo o mais ateu dos materialistas cientificistas não consegue evitar tais expressões de hierarquia celeste.

No Romance ''O Pêndulo de Foucalt'', de Umberto Eco, há uma cena supreendente em que a personagem feminina principal, como uma Beatriz invertida, tenta derrubar todo o simbolismo religioso. Ela reduz tudo ao corpo humano e à experiência corpórea, começando por afirmar que ''os arquétipos não existem, o corpo existe''. Ela diz muitas coisas que intencionam chocar, é claro, mas quando chega á idéia do céu afirma:

''alto é melhor do que baixo, porque se você abaixar a cabeça, o sangue vai pro seu cérebro, porque os pés fedem e a cabeça não fede tanto, porque é melhor subir em uma árvore e pegar um fruto que terminar no subsolo, alimento para os vermes, e porque você raramente se fere ao bater em algo acima de você -- você realmente teria de estar no sótão -- enquanto você frequentemente se machuca ao cair. Daí porque em cima se encontra o angélico e abaixo o demoníaco''.

E então em relação à verticalidade:

''a posição vertical é vida, aponta na direção do sol, e o obeliscos são posicionados como as árvores, enquanto a posição horizontal são o sono e a morte. Todas as culturas cultuam menires, monolitos, pirâmides, colunas, mas nenhuma se prostra para varandas e grades. Você já ouviu falar de um culto arcaico ao balaustre sagrado? Percebe? E um outro ponto,: se você venera uma pedra vertical, mesmo que sejam muitos de vocês, todos podem vê-la; mas se você adora, ao em vez disso, uma pedra horizontal, somente aqueles na fileira da frente podem vê-la, e os outros começam a empurrar, ''eu também'', ''eu também'', o que não é uma visão adequada para uma cerimônia mágica...''

Se pelo menos a maioria dos cristãos possuísse essa intuição muitos problemas seria evitados! Embora pareça irreverente no início, e é claro que ela tem a intenção de ser, também esconde algo ainda mais profundo. Beatriz, a guia de Dante, como se antecipando a tais argumentos nos conta que ''falar assim é adequado para nossa mente, já que somente pelos sentidos é apreendido aquilo que é digno do intelecto''. O Simbolismo é inteiramente intuitivo, está plenamente em sintonia com o modo com que experienciamos o mundo. Tudo o que a protagonista de Ecco diz é verdadeiro. Só que ela consegue perceber a analogia descendente e não consegue perceber a mesma analogia quando aplicada para cima! Qualquer um que tenha visto algo apodrecendo se tornar terra, mas que plantou uma semente nessa mesma terra para vê-la crescer, pode entender o que a Terra é. Se você puder ver que alguém em um grupo de pessoas colocado acima das demais imediatamente se torna o centro, o foco, pelo fato mesmo dessa pessoa conseguir ver todas as demais e as demais poderem vê-la -- enquanto uma outra pessoa no meio de outro grupo só consegue enxergar aquelas que estão próximas delas --, então imediatamente terá um vislumbre do Céu. Se colocar seu rosto no chão, terá uma visão ''particular'' e limitada, poucas porções de grama e talvez alguma poeira, mas se começar a subir em uma montanha, então vai entender o que é o Céu, pois na medida em que se elevar, vai enxergar mais e mais, sua visão vai englobar mais da Criação ao seu redor como se você estivesse no cume do mundo. Ali alguém pode alcançar a relação entre os Céus, a verticalidade e o centro. Ali alguém pode ouvir Deus.


Escada da Divina Ascensão
Mas para entender esse simbolismo demos nos apartar em primeiro lugar da visão exterior, que aliena -- e que é amplificada pela visão da ciência moderna e da tecnologia --, pelo menos um momento, e tentar enxergar o mundo de maneira mais imediata. Os ícones e outros espaços sagrados podem nos ajudar, pois ainda que sejam ''artificiais'' no sentido de que são feitos pelo homem, agem como uma espécie de memória em nosso estado confuso, podem nos revelar aquilo que a arte faz ao refinar e apontar claramente como o mundo pode ser experimentado à luz de Seu Criador.

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1. Pavel Florensky. Imaginary Number in Geometry, 1922 (Minha tradução)
2. Veja por exemplo, CS. Lewis.The Discarded Image.
3. Veja por exemplo, Edmund Husserl. “The Original Ark, Earth, Does Not Move”.
4. Martin Heidegger. Origin of the Work of Art, in “Off The Beaten Track”, traduzido por Julian Young e Kenneth Hayes, Cambridge Press, 2002.
5. Na verdade, Dante percebeu em seu tempo a transição entre o pintor icônico Cimabue e Giotto, que é como uma curva para a Renascença
6. Dante usa na verdade a Terra esférica em seu modelo cosmológico e o faz de uma maneira que é bastante poderosa e convincente para unir a mais antiga visão hierárquica do céu e da terra ao modo como experimentamos uma esfera no tempo como um movimento cíclico. Isso nos mostra que mesmo o modelo cosmológico moderno poderia potencialmente ser um suporte para as verdades espirituais embora não tenha visto ninguém que tenha conseguido fazer isso de modo convincente hoje em dia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Durante a Maior Parte do Tempo a Terra é Plana

Cristo no centro do zodíaco, Mosteiro Dekoulou, Grécia
A ciência, a ciência moderna atual, abarcou praticamente todo o nosso olhar. Tornou-se o quadro singelo e transparente em que experimentamos o mundo, os óculos que usamos para julgar a verdade, a medida que possuímos contra a nossa experiência. Auto-evidente para a maioria, a visão material e quantitativa do universo que se desenvolveu desde o assim chamado Iluminismo se tornou ao mesmo tempo o maior porrete brandido contra a religião como também foi elevado a critério final de ''verdade'', a última e frágil barricada erigida por alguns religiosos contra um ataque incessante.


O ''mundo máquina'' da ciência é tão difundido, tão ferreamente sólido, que se retro-projeta pra toda história da experiência humana. Encontramos assim na maior parte das narrativas históricas modernas os contos ''supersticiosos'', do ''se eles pelo menos soubessem'', culminando naquela declaração perniciosa que frequentemente ouvimos: ''as pessoas costumavam pensar assim, mas agora SABEMOS QUE...'' Evidente que isso é natural. A História, tal como eles dizem, é escrita pelos vencedores. Mas eu preferiria dizer que a história não é tanto escrita pelos vencedores como modelada por eles. Pois aquilo que mudou no século XVII, durante aquele tumultuado período na Europa Ocidental, aquilo que vem rachando por quatrocentos anos e que finalmente se espatifou foi a estrutura de pensamento medieval.
As esferas cósmicas, de um manuscrito medieval

Eu gostaria de mostrar essa estrutura o máximo que puder, mas devo ser honesto com a quase impossibilidade disso. Libertar-se da caverna platônica, retroagindo para enxergar nossa própria visão de mundo tal como é, nos obriga a adentrar um lugar frequentemente muito arriscado, muito desorientador para a maioria das pessoas. Pode ser quase como cair em um abismo, perder um universo inteiro; mas para aqueles que ousaram pular sobre ele pode ser também causa de uma verdadeira ''metanoia'', verdadeira ''transcendência da mente''.

Apesar da difusão da ciência moderna, é fascinante observar como a visão de mundo, especialmente a cosmologia antiga universal e tradicional, ainda está aí, tão próxima de nós que se encontra presa entre nossa experiência humana real e nossas teorias científicas sobre o mundo. O sol, a lua e os planetas ainda se levantam no leste, a terra permanece imóvel até que um terremoto a estremeça, e o céu ainda se encontra lá em cima, estirado como um domo sobre nossas cabeças. Claro que somos ensinados que essa experiência é tão somente uma ilusão. Mas o impacto é real, principalmente para aqueles que continuam ligados à Tradição. Precisamos reconhecer o tipo de esquizofrenia em que vivemos quando dizemos coisas como ''Nosso Pai que está nos Céus'', quando olhamos ícones do Cristo descendo ao Hades, quando o padre levanta a Hóstia durante a Liturgia. O que está acontecendo? Quando dizemos que Cristo ascendeu aos Céus, para onde Ele foi? Entrou em órbita? Foi para a lua? Esse conflito atraiu teólogos protestantes como Rudolf Bultmann para um cristianismo ''desmitologizado'', que remove da religião todas aquelas coisas incômodas que não se adequam a nossa visão de mundo racional, moderna e científica.


Ícone do século XV de Novgorod

O problema com a remodelação desmistologizadora é que ela falha em perceber o próprio ''mito'' da modernidade espremido em viseiras de ferro, sua própria grande narrativa de um mundo científico material em que a felicidade humana surge pelo progresso técnico e material. Ela não leva em conta o agora tão visível efeito da perspectiva cosmológica moderna sobre a psique humana, o papel que desempenha no estado alienado do homem moderno. A desmitologização ignora como a ciência moderna contribui para o extremo abuso que o homem faz da Criação através das armas de destruição em massa, da carnificina industrial da guerra total e como estabelece o velho materialismo industrial ganancioso que leva ao desastre ecológico. O método científico é por sua forma mesma uma revolta contra qualquer avaliação qualitativa, um ataque contra qualquer teleologia no fenômeno, qualquer sentido nas coisas ou em suas mudanças. Então como pode a desmitologização servir àqueles cuja religião está ancorada na noção de que todo sentido no interior da Criação culmina no Logos encarnado?


Os dois grandes cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki. A ciência moderna revelada.

Gostaria de propor algo que pode parecer provocativo em primeiro lugar, mas que, espero, vai ajudar as pessoas a verem o mundo com olhos diferentes. Existe uma imagem crescente no horizonte recente da experiência humana, a imagem de uma família ou de um grupo de amigos todos próximos uns dos outros em torno de uma mesa ou algum outro ambiente privado, e ainda assim todos interagem com tablets, ipods e smartphones como se as pessoas ao redor não existissem. Gostaria de propor que essa imagem, essa realidade é o resultado final do modelo cosmológico de Galileu. Alguns de vocês podem achar que estou exagerando, então preciso explicar.

Tempo em família no século XXI
A cosmovisão copernicana/galilaica, ou seja, a visão de mundo heliocêntrica e seu posterior desenvolvimento na nossa cosmologia moderna de galáxias e nebulosas e buracos negros possui dois aspectos importantes. É uma visão alienante e uma visão artificial. É artificial no sentido estrito de ''arte'' ou ''técnica''. É uma visão técnica porque não pode experimentar essa visão sem a tecnologia, sem telescópios e outros aparatos. Dado que a tecnologia é uma coisa complementar, é uma veste de pele, algo que adicionamos às nossas naturezas de modo a apoiá-la fisicamente em direção do mundo material, ela acaba por nos levar assim cada vez mais fundo no próprio mundo material. Expliquei esse paradoxo em outro lugar, mas pode ser útil revisar a noção básica. A tecnologia humana, qualquer tecnologia, existe para complementar a experiência humana encarando os perigos e desafios da existência física. As roupas nos protegem do clima, os escritos gravam coisas de modo que não precisemos lembrar de todas elas, as armas nos tornam mais poderosos que nossos inimigos. Mas cada tecnologia nos leva mais profundamente á existência material porque nos confere a sensação de força material. Se posso construir uma casa ou criar roupas quentes, posso habitar em locais em que sem elas certamente morreria. Se agora tenho fósforos para fazer fogo não preciso mais aprender como fazer fogo sem eles. Já que tenho o telefone de minha mãe no celular, não há mais necessidade de memorizá-lo. Cada força é ao mesmo tempo uma fraqueza porque inevitavelmente me torna mais dependente desse poder artificial. Claro, não há nada inerentemente errado nisso. De fato, a tecnologia sempre existiu como complemento material da existência, e também as roupas, carros, ferramentas desenvolvidas pela humanidade para manter a morte à distância.

No entanto, foi somente no século XVII que os homens engajaram-se inteiramente no processo de complementação. Foi somente no século XVII que os homens padronizaram sua visão com metal e vidro, projetando suas mentes em um espaço aumentado artificialmente. Os homens sempre possuíram espaços, pinturas, esculturas, mapas artificiais, mas o telescópio e o microscópio são artefatos que tentam substituir os olhos, nos convencer que eles não são artificiais , que são ainda mais reais do que o olho. Não é só o gesto físico de olhar o mundo através de uma máquina que revela a mudança radical, apesar disso ser suficientemente simbólico, mas o fato mesmo de que as pessoas chegaram à conclusão de que o que elas vêem através dessas máquinas é mais verdadeiro do que como eles experimentam o mundo sem elas. E ainda assim a verdadeira revolução não foi simplesmente uma correção técnica, tal como é apresentado por alguns hoje em dia, não é só que, tecnicamente falando, costumávamos acreditar que a terra era um disco chapado no centro do cosmos e que agora sabemos que ela é uma bola gigante de água e poeira girando em torno de um gigantesco reator nuclear no centro de nosso sistema planetário. A mudança ocorreu no próprio núcleo da Verdade, é uma mudança de prioridade de conhecimento, uma mudança naquilo que é importante para nós, seres humanos. Essa foi a mudança. No mundo tradicional, toda a realidade é entendida e expressa de uma maneira integrada. Descrevemos fenômenos da maneira como os experimentamos porque o que importa não é tanto inventar grandes artefatos mecanicamente precisos que aumentarão nosso poder físico, mas antes a formação de seres humanos que possuam virtude e sabedoria. A resistência ao modelo heliocêntrico foi um desejo de ''salvar o fenômeno'', o desejo de expressar o mundo tal como o experimentamos porque essa expressão deve permanecer ligada a como os seres humanos vivem suas vidas e interagem com Deus e com o próximo. Desse modo, projetando-nos através de nossas máquinas em um mundo fisicamente ampliado, ''caímos'' na materialidade, inevitavelmente vivemos em um mundo mais material e materialista. E essa é a própria história moderna.

O que procede daí é meu segundo ponto, a saber, que a cosmologia moderna não é somente artificial, mas é alienante, distancia o homem de si mesmo. Uma vez que o homem tenha aceitado que aquilo que viu através de seus telescópios e microscópios é mais real do que sua experiência natural, tornou inevitável o mundo artificial, tornou inevitável ter por fim a realidade plástica, sintética, geneticamente modificada, pornográfica, interconectada e virtual em que vivemos. Quando no núcleo de sua visão, a forma de seus cosmos te leva a acreditar que a tecnologia providencia uma percepção que é mais verdadeira, mais real do que sua experiência, mais real do que sair de sua casa e olhar para o céu, então o telescópio e o microscópio logo estarão lado a lado com a câmera, a tela e o tempo e espaço acelerados da janela do carro. O modelo do metal e do vidro vai nos engolir e os seres humanos se perderão por causa de sua incapacidade de habitar plenamente o mundo.



A maioria de nós consegue nomear os planetas na direção do Sol: Mercúrio, Vênus, Terra etc. Mas quantos de nós pode sair à noite e identificar os planetas no céu à medida em que eles viajam pelo zodíaco? Quantos de nós podem identificar as constelações além da Ursa Maior, da Ursa Menor e mais uma ou duas? Recentemente fui ao planetário com meus filhos. Eles apresentaram o show com grande ovação, e explicaram que ajudava às crianças a ''experimentar'' a astronomia. Enquanto sentávamos lá olhando para a projeção no teto, viajamos pelo sistema solar, voamos através do sol, das galáxias, e nebulosas e buracos negros. Foi hipnotizante. É reconfortante saber que há pelo menos um prédio em que posso dar dinheiro para verdadeiramente viver no cosmos da ciência moderna por alguns pouco minutos. O pior é que na maior parte do tempo vivo apenas pela metade naquele mundo. Uma grande parte de mim ainda se arrasta em uma Terra imóvel, com o sol, as estrelas viajando pelo domo do Céu. Sou ensinado de que a verdadeira imagem não é essa da Terra aqui embaixo e do Céu lá em cima que experimento no dia a dia, mas um retrato de uma bola flutuando no vazio, uma visão que nunca tive por mim mesmo, a não ser que olhe um figura ou uma tela, exceto se eu for afortunado o bastante para ser levado em uma grande máquina de metal e vidro que vai me proteger de um ambiente em que eu morreria instantaneamente sem sua proteção. É essa a Verdade? É essa a Sabedoria? É essa a Virtude?


A nebulosa de caranguejo retirada do telescópio Hubble.

Agora, se a partir daí você teve a impressão de que estou negando a acurácia técnica da cosmologia moderna, significa que não fui capaz de te retirar o suficiente de sua moldura para que você pudesse enxergar. A cosmologia moderna é de fato útil para enviar satélites e naves espaciais, para enviar algumas poucas pessoas para colonizar Marte. E até mesmo durante a Idade Média os acadêmicos acreditavam que a Terra era esférica. Múltiplas cosmologias podiam co-existir com funções e papéis diferentes, algumas mais filosóficas e humanas e outras mais matemáticas e técnicas. Mas a maior parte do tempo em nossas vidas, a Terra é plana. Durante a maior parte do tempo, o Céu está lá em cima e a Terra aqui embaixo, e ''a maior parte do tempo'' significa por exemplo aqueles instantes em que interajo com minha família, minha sociedade e meus inimigos. E além disso tudo, se quisermos entender a religião e seu simbolismo, se desejamos entender a Bíblia, ou ícones, ou a arquitetura das igrejas, devemos nos ancorar no mundo da experiência humana, pois é nele que podemos amar nosso próximo. Devemos nos forçar a acreditar que o sol se levanta a cada manhã, ou que a lua cresce e mingua; e honestamente não vai ser tão difícil, porque, apesar de Galileu e Newton e Einstein, estou seguro de que encontraremos alguma Verdade na aurora rosada de amanhã.

Traduzido de: http://www.orthodoxartsjournal.org/most-of-the-time-the-earth-is-flat/

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Monasticismo Ortodoxo 2 - Origens da Prática Cristã


Olhemos para as origens do monasticismo como fenômeno cristão. No Antigo Testamento, encontramos o Profeta Elias como um tipo do monge: ele possui cabelo longo e despenteado; é celibatário e etc. Ao mesmo tempo que Elias, encontramos nas Escrituras fraternidades chamadas de ''Filhos dos Profetas''. As Escrituras silenciam sobre as práticas destes ''Filhos dos Profetas'', mas frequentemente se admite que elas eram monásticas em sua natureza. O Profeta Eliseu, escolido por Elias por ordem divina como seu sucessor, também era celibatário.

Extra-biblicamente, sabemos que por volta dos tempo de Cristo existiu uma fraternidade monástica chamada de ''Essênios'', que é citada pelo historiador Josefo, que afirmou ter passado parte de sua infância entre eles. Entretanto, o Novo Testamento mantém silêncio completo sobre os essênios. Naturalmente, não sabemos o porquê. Mas o silêncio das Escrituras sobre eles indica que não eram considerados pela Igreja nem como cristãos nem como judeus, nem como tendo qualquer conexão com Jesus Cristo ou São João Batista.

Finalmente, temos o próprio São João Batista. Aqui a Escritura é tudo menos silente. É claro que São João Batista é um tipo do monge: possui cabelos mal-cuidados; veste roupas feitas de pelo de camelo e um cinturão em torno da cintura; come gafanhotos e mel silvestre; vive claramente no deserto antes de do chamado profético divino para que pregasse um batismo de arrependimento.

Nos Atos dos Apóstolos, a comunidade cristã primeva é descrita tendo uma vida em comum, onde todos contribuíam para o tesouro comum e recebiam de acordo com suas necessidades, comendo também em uma mesa coletiva. Isto é usualmente tomado na Ortodoxia como um modelo divinamente inspirado de vida cenobítica. Entre os Apóstolos, a maioria era celibatária, especialmente São Paulo, que destaca em uma de suas epístolas que desejava que todos fossem como ele [celibatários], mas que cada um possuía sem próprio dom; e em outro lugar, que aquele que casa faz bem, mas aquele que não casa faz ainda melhor.

No Evangelho, o próprio Jesus Cristo era solteiro. Mais ainda, ao discutir o casamento, Nosso Senhor aponta que existem aqueles que se fazem eunucos pelo Reino dos Céus. Tal é interpretado pela Igreja não como aqueles que se castram fisicamente [o que foi sempre proibido], mas aqueles que adotam o celibato por amor ao Reino de Deus. A este respeito, é bom lembrar a afirmação de São Paulo de que aquele que casa tem de ter cuidado para agradar sua mulher [o mesmo vale para a mulher que casa com relação ao seu marido], enquanto que aquele que não casa pode se dedicar apenas a agradar a Deus. Entretanto, a passagem dos Evangelhos prossegue dizendo que o celibato não é para todos mas somente para aqueles a quem é dado, para aqueles, a passagem esclarece, que possuem esta força. Assim, podemos ver que as Escrituras nos ensinam que o celibato é melhor do que o casamento mas que nem todos são aptos para praticá-lo; e que, mais ainda, o propósito do celibato é libertar a pessoar para que ela se devote somente a Deus, à consecução do Reino dos Céus.

Nas epístolas de São Paulo existem referências a ''viúvas'' ligadas à Igreja e por ela sustentadas. Estas viúvas são tomadas por precursoras do monasticismo feminino. Em um lugar, São Paulo nota que as jovens viúvas deveriam casar de novo porque não se encontravam sólidas em seu compromisso com a castidade permanente e assim postergavam seu compromisso com Cristo.

Nos Atos dos Apóstolos, Dorcas, que foi ressuscitado dos mortos por São Pedro, parece ser um exemplo de uma viúva ligada à Igreja. Quando Pedro vai ao lugar em que os restos de Dorcas se encontram, a ele são mostrados os artesanatos feitos por ela para a Igreja.

Finalmente, fora das Escrituras, o filósofo judeu Fílon de Alexandria, que viveu no século I, escreveu um pequeno trabalho descrevendo os ''terapeutas'' e suas práticas. Os terapeutas viviam ao redor de Alexandria. Não se sabe quem realmente eram, mas uma das teorias era de que se tratavam de monges cristãos primevos.

Monasticismo Ortodoxo I - Filologia e Fontes


Discutamos primeiro o significado dos termos 'monge' e 'monasticismo' a partir de um ponto de vista filológico. As palavras derivam do grego μοναχός, que significa 'solitário'. De fato, o sentido original de 'monge' na Igreja Ortodoxa é 'aquele que vive só'. Pelo que conhecemos do monasticismo, isso significa claramente alguém que renunciou o mundo, o casamento, a família e que se retirou para o deserto. Entretanto, Santo Atanásio o Grande, na sua ''Vida de Santo Antão'', afirma que até o tempo de Antão os monges viviam antes em celas nos limites das cidades do que no afastados no deserto. Podemos tomar isso como um observação prática que se aplicava pelo menos ao Egito em meados do século III.

Olhemos agora para a origem do monasticismo na Igreja Ortodoxa. Vejamos primeiro as condições sociais do Oriente Médio e da Bacia do Mediterrâneo no período clássico tardio. Há algumas áreas que nos interessam mais especialmente: Constantinopla, Capadócia, Síria, Palestina e Egito.

A Síria e a Bacia do mediterrânea eram áreas sofisticadas e cosmopolitas. São Clemente de Alexandria, escrevendo em meados do século II, se refere ao budismo, do mesmo modo que São Cirilo de Alexandria em seus catecismos em meados do século IV. A brevidade dessas menções indicam que o budismo não era uma força séria nestas áreas, mas é importante perceber que a região não era isolada. Havia muito mais interação entre ela e o Oriente do que geralmente se pensa. Mais ainda, existiam várias heresias que eram mais ou menos prevalecentes na área, como por exemplo o maniqueísmo e o gnosticismo. Havia ainda mais interação através do Mediterrâneo, apesar das dificuldades para se viajar, do que geralmente se imagina; podemos perceber isto por meio dos Atos dos Apóstolos. O mundo intelectual destas regiões era muito sofisticado, semelhante aos nossos dias.

Fazemos esta apreciação para montarmos o cenários para nossas considerações sobre o desenvolvimento do monasticismo no Egito e na Síria. Hoje em dia, alguns acadêmicos defendem que Santo Antão, por exemplo, foi, pelo menos nas cartas que lhe são atribuídas, um escritor muito mais sofisticado e não cristão do que se supõe comumente. Nós duvidamos destas afirmações acadêmicas, desprovidas que são do phronema e mentalidade autêntica da Igreja Ortodoxa, mas é bom termos em mente as características da região.

Consideremos agora as fontes de nosso conhecimento do monasticismo ortodoxo. Existem três tipos de fonte primária: a vida dos santos, incluindo o período inicial dos ''Ditos dos Padres do Deserto''; escritos dos próprios santos, especialmente testamento e Typika ['regras'] para as fundações monásticas; e os tratados dogmáticos e ascéticos dos santos ascetas.

A maioria das vidas dos santos disponíveis foram coletadas e publicadas pelo menos no grego original pelos Padres Bolandistas. O ''Ditos dos Padres do Deserto'' foram publicados integralmente em várias edições em francês. A situação na língua inglesa não é boa.

O ''Synaxaria'', as coleções de vida dos santos, são usualmente edições modernas mais equilibradas, enquanto as vidas dos santos originais foram trabalhadas por um ou outro editor, o que é verdade até para a ''Synaxaria'' mais antiga. Assim, as edições críticas da vida dos santos terão preferência. Entretanto, ocasionalmente o único registro que teremos sobre a existência de um santo será uma breve entrada no Synaxarion. Isto ocorre especialmente com os santos anteriores ao Edito de Milão, em 313. Nos casos de um santo asceta anterior a esta data, o Synaxarion é o único registro de práticas ascéticas ou monásticas no período.

Os testamentos e typika do Império Bizantino foram publicados no grego orinal com tradução em inglês pela ''Dumbarton Oaks Research Library'', e a coleção inteira pode ser encontrada de graça on-line em [http://www.doaks.org/typ000.html].

terça-feira, 17 de maio de 2016

Como ler a Filocalia


Instruções do Peregrino Russo sobre como ler a Filocalia:

"Eis que, no sonho, me vejo na cela do monge meu amigo e ele me explica a Filocalia, dizendo:
- Este santo livro está cheio de sabedoria. É um misterioso tesouro de ensinamentos sobre os desígnios secretos de Deus. Não é acessível em qualquer trecho e a qualquer pessoa. Contém lições na medida de cada um: profundas para os espíritos profundos e simples para os espíritos simples. É por isso que pessoas simples como tu não devem ler os livros dos Padres na sequencia em que estão colocados aqui. Trata-se de uma disposição de acordo com a teologia. Mas aquele que não é instruído e deseja aprender a oração interior na Filocalia, deve lê-la na seguinte ordem:
1- em primeiro lugar, ler o livro do monge Nicéforo (na 2ª parte);
2- o livro de Gregório, o Sinaíta, inteiro exceto os capítulos pequenos;
3- as três formas de oração de Simeão, o Novo Teólogo, e seu tratado da Fé;
4- o livro de Calisto e Inácio.
Nesses textos, acha-se o ensinamento completo da oração interior, ao alcance de cada um."