quinta-feira, 23 de julho de 2015

Gnose, Gnosticismo e Ortodoxia


A gnose é uma atividade natural do homem, que foi embotada por causa da queda e dos desvios dos poderes noéticos. Ela consiste no conhecimento unitivo dos logoi de Deus, e em sua dimensão mais profunda, da contemplação das energias divinas. Mas para que isso venha a ocorrer é necessário retificar as paixões, as faculdades da alma, que se encontram em um estado desordenado. Isso é feito a partir da participação nos mistérios divinos, da oração e do ascetismo.
O que foi chamado de gnosticismo no mundo antigo e medieval é um fruto possível do desvio da atividade de gnose da qual todo homem é capaz. Isso está exposto de maneira muito nítida nos tratados ascéticos de Abba Evágrio. Ele conta como a ordenação do mundo é realizada pela Sophia, que é um nome de Cristo, ou seja, da Sabedoria Hipostática de Deus. E descreve como até os pagãos podem, a partir de seus esforços ascéticos, contemplar as essências [logoi] dos entes visíveis e invisíveis inscritos nas energias do Verbo. Podem até mesmo ter gnose dos poderes angélicos, e mesmo dos logoi dos poderes angélicos. Mas não podem ver Deus, pois para isso é necessário a Graça Deificante. Além disso, os problemas da gnose são os mesmos das demais atividades humanas, ocorrem em um contexto de guerra, de oposição realizada por diversos espíritos decaídos. Há demônios que tentam o homem não apenas em relação às suas paixões [em sentido estrito], ou seja, quanto aos elementos de sua psique, mas também quanto à sua ascensão gnóstica. Note então que para Abba Evágrio a atividade satânica não se resumia à esfera estritamente psíquica, mas se estendia à gnose dos princípios. Abba Evágrio cita também a possibilidade de uma 'gnose demoníaca', causo em que o gnóstico se une aos principados do ar, que lhes proporciona uma ''iluminação obscura'' [a gnose não é uma abstração ou uma contemplação dualista, mas uma troca ''substancial'', que altera o gnóstico e o conforma àquilo que é contemplado]. Essa é a origem do heresiarca, pois uma das funções fundamentais do gnóstico é o ensino dos demais. Teremos então gnósticos espalhando erros por aí porque, sem o saber, caíram vítimas de demônios. Isso não significa que todo gnóstico não cristão é vítima de demônios. Mas significa que ninguém é santo só por alcançar algum grau, mesmo que elevado, de gnose.

Texto de André Luiz do Reis

Um comentário:

  1. Olá. Sou Católico Romano. Gostaria de saber como a Gnose proposta aqui ve a necessidade da redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo para o verdadeiro conhecimento de Deus e a necessidade do Santo Batismo. A redenção e o batismo são dispensáveis para se ter a verdadeira gnose? A gnose proposta pela ortodoxia é semelhante ao conhecimento interno de Jesus Cristo? Ela o reconhece como único Senhor e Salvador do Universo inteiro? obrigado

    ResponderExcluir